
Um aluno de pós-graduação da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) criou um dispositivo que detecta sangue humano em cenas de crime por meio de vídeos gravados com um celular. A ferramenta, que consiste numa câmara escura feita de papelão, também estipula o tempo em que o material biológico permaneceu no local com pouco mais de três dias e meio de precisão.
“Com esse método que a gente desenvolveu, ele [o perito] pode pegar essa amostra, colocar na caixa, fazer essa análise […]. E aí se mostra mais rápido e menos custoso do que ter que levar isso para o laboratório, esperar fazer essa análise para ter a confirmação de se é realmente sangue e se é humano”, explica o mestrando em química Thomas Tributino, responsável pelo projeto.
O experimento faz parte do projeto de mestrado de Thomas sobre o método da câmara escura, chamado de CDIB (sigla em inglês para “Imagem digital baseada em quimiluminescência”). Iniciado em 2023, o estudo foi divulgado em artigo que saiu, no mês passado, na revista científica “Analytical Methods”, da Royal Society of Chemistry, a Sociedade de Química do Reino Unido.
A publicação é assinada com cientistas da própria UFPE, da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), da Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE) e do Departamento de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP) da Polícia Civil do estado.
Segundo o mestrando, a tecnologia parte da mesma metodologia utilizada atualmente por peritos ao analisarem uma cena de crime, com o uso de luminol — composto químico que reage com a superfície contaminada e emite uma luz azul, revelando se tem ou não sangue oculto naquele lugar.
“Construí uma câmara de uma caixa de papelão, pintei ela toda de preto, preto fosco. E adaptei ela para ter duas entradas atrás. Uma é a entrada do luminol […]. E o outro lado é o pedaço de hidrogênio, que é a água oxigenada, também necessária para o luminol funcionar”, detalha o cientista.
O celular é acoplado numa abertura em cima da câmara de papelão. De acordo com o pesquisador, a tecnologia funciona da seguinte forma:
- coloca-se a superfície contaminada com sangue embaixo da câmara, que simula um ambiente escuro, condição essencial para que a reação do luminol possa ser visualizada;
- com o uso de duas seringas, aplica-se uma solução composta de 1 mililitro de luminol e água oxigenada na amostra;
- com a câmera do celular, grava-se o processo de reação química do início até o fim, o que pode durar de 1 minuto e 40 a 2 minutos e 50 segundos;
- nos pontos em que aparecer a luz azul, o dispositivo confirma a presença de sangue;
- com a ajuda de softwares e aplicativos de simulação matemática e estatística, o perito faz a decomposição dos frames do vídeo e a análise dos dados a partir das imagens coletadas;
- a partir do processamento das imagens e da análise especializada, é possível saber se o líquido é sangue humano e estimar por quanto tempo estava ali.
Segundo Thomas Tributino, a análise de um vídeo, para uma única amostra, dura entre 15 e 20 minutos.
“A análise depende da quantidade de dados. Como tínhamos muitos dados para analisar e fazer a calibração do método, demorou um pouco por conta da pesquisa, uns seis a sete meses”, conta.
Fonte: g1/pe




