Emendas ajudam a inflar cachês, e prefeituras cancelam Carnaval pelo NE

Foto: Carnaval de Tauá (PB) em 2025 – Imagem: Facebook/Divulgação

O aumento expressivo nos cachês cobrados por artistas tem se tornado uma grande preocupação para prefeitos do Nordeste. Diante de valores considerados fora da realidade financeira, especialmente para municípios de pequeno porte, gestores da região articulam uma ação conjunta para tentar conter os preços.

O debate ganhou força com a proximidade do Carnaval, período em que as prefeituras tradicionalmente contratam atrações musicais para animar os festejos. No entanto, a escalada dos valores tem levado muitos municípios a cancelar ou reduzir a programação carnavalesca. O movimento já se estende, inclusive, às discussões sobre os festejos juninos.

No Ceará, ao menos três cidades — Tauá, Caucaia e Jaguaretama — já anunciaram o cancelamento das festas. Em Jaguaretama, o prefeito Marcos Cunha (PSB) se manifestou publicamente sobre a decisão. Situação semelhante ocorre no Rio Grande do Norte, onde a Prefeitura de Paraú cancelou o Carnaval e informou que os recursos serão destinados a ações de enfrentamento à seca. A mesma justificativa foi adotada pelo município de Santa Luzia, na Paraíba.

Em Massapê (CE), o prefeito Ozires Pontes (PSDB) anunciou, no dia 1º de fevereiro, a redução da festa de quatro dias para apenas um. Em publicação nas redes sociais, ele criticou duramente os valores cobrados. “As bandas estão cada uma mais cara do que a outra; banda que nem é ‘top das galáxias’ querendo R$ 500 mil. Absurdo”, declarou. Segundo ele, não faz sentido comprometer as finanças de cidades pequenas para realizar eventos. “Somos um estado pobre, com 184 municípios. Muitas cidades não têm condições de bancar esses custos”, afirmou.

De acordo com Joacy Alves Junior, presidente da Associação dos Municípios do Ceará (Aprece), há casos em que os cachês mais que dobraram de um ano para o outro. “Bandas que cobravam R$ 100 mil em 2025 agora pedem R$ 200 mil, R$ 300 mil, chegando até a R$ 800 mil. Não há como pagar”, relatou.

Entre os fatores que explicam essa alta estão o aumento de eventos financiados com recursos federais, por meio de projetos aprovados nos ministérios do Turismo e da Cultura, além do uso de emendas parlamentares para custear shows. Segundo Joacy, como hoje a maioria das festas é organizada pelo poder público — e não mais por clubes privados, como ocorria no passado —, a grande demanda por artistas acaba inflacionando os preços. “Se centenas de municípios disputam as mesmas atrações, a lei da oferta e da procura faz com que os artistas cobrem o que quiserem”, explicou, destacando que essas contratações ocorrem sem licitação.

Outro fator citado é a chamada emenda Pix, que permite o repasse rápido de recursos às prefeituras. “O dinheiro cai na conta e a festa acontece. Se não fosse isso, muitos municípios não teriam condições de pagar”, acrescentou.

O cenário financeiro também preocupa para 2026. Segundo Joacy Alves Junior, a isenção do Imposto de Renda provocou uma queda significativa na arrecadação, o que deve levar prefeitos a adotarem maior cautela nos gastos.

O debate se espalha por outros estados. Na Bahia, uma comissão de prefeitos se reuniu com o Ministério Público estadual para discutir a contratação de artistas para o São João. O encontro resultou na definição de critérios e limites de gastos por meio de um Termo de Ajustamento de Conduta (TAC). “É uma resposta ao clamor da opinião pública, garantindo transparência. A inflação foi de 4,6% e o piso dos professores subiu 5,4%, então não é razoável que os cachês aumentem de forma tão desproporcional”, afirmou o prefeito de Andaraí (BA), Wilson Cardoso (PSB).

Na Paraíba, uma reunião semelhante ocorreu com o Tribunal de Contas do Estado (TCE). Segundo Márcio Leite, presidente da Associação dos Municípios do Cariri e Agreste da Paraíba, a preocupação é generalizada. “Os prefeitos estão nos procurando para buscar alternativas. Os valores cobrados atualmente são incompatíveis com a realidade financeira da maioria dos municípios”, concluiu.

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